domingo, 8 de janeiro de 2012

Um dia de sol.

Ontem ao almoço, depois de eu me expressar no meu Italiano mais fluente, a rapariga que trabalhava no restaurante perguntou se eu estava em Nápoles a estudar… Ainda tenho aspecto de estudante… Eu ri-me e disse que estava em trabalho. Ela deve ter pensado: a falares assim Italiano deves comunicar muito bem com os teus colegas!

Hoje de manhã fui caminhar pela baía de Nápoles. Esteve muito bom tempo. O sol era forte para Janeiro, sem vento e sem nuvens o mar sofria de uma quietude que não me é habitual. Para quem sempre viveu junto ao Oceano Atlântico não lhe é familiar ver uma imensidão de água assim tão extensa e nenhum som de ondas…
A água azul cristalina desde mar, agora junto a mim, transmitem-me uma diferente emoção, mas sempre calma. A camada incolor e transparente que divide o ar do fundo do mar, dá-me vontade de saltar lá para dentro… mas estamos em Janeiro… pena.
O cheiro também é diferente, passa por despercebido ao meu olfacto. De ser falta de sal.

Muitas famílias se passeavam hoje pela rua, balões, comida de rua, vendedores ambulantes, corredores e corredoras, caminhantes e muitas conversas.
Camadas de base, bâton, rímel, e mais publicidade enganosa para ir simplesmente passear à beira mar… Os que não estavam em fato de treino a correr ou a caminhar pareciam que iam assistir a uma ópera ao Teatro São Carlos… Eu de t-shirt e blusão pensei que ia passar um pouco de calor, e passei, estas pessoas devem ter um sistema de refrigeração mais moderno.

Depois de passar pelos pescadores que vedem o seu peixe acabado de pescar, mesmo ao lado de uma via rápida com 4 faixas de rodagem. Depois de passar por um castelo e ver ao longe no cimo da colina outro ainda mais antigo, de ver a Ilha de Capri entre a bruma que se eleva do mar num dia como hoje. De passar por jovens a namoriscar pendurados nos muros junto ao mar, de ver velhos e novos a aproveitar o sol que hoje lhes foi endereçado, meti-me pelo meio das ruas caóticas do centro histórico.

Pois bem era hora de almoço e tinha fome. Depois de caminhar mais uns bons quarteirões cheguei onde queria. A um antigo restaurante bem no centro do centro histórico…
Onde comi uma mistura de peixes fritos com lulas e um camarão… só um pois não podemos ficar a ganhar. Acompanhado por beringelas à parmagiana. Podia ser da fome, mas não creio, a pescadinha, o salmonete, os calamares, o camarão e um outro peixe que não sei qual era estavam simplesmente divinais! E as beringelas também estavam boas, embora frias… em minha a casa eu sirvo-as sempre quentes.   
Isto a ser acompanhado por um trio de guitarra, contra-baixo e clarinete… músicas tipo Padrinho, qual Don Michael Corleone!
Ainda tive sorte por haver a mesa do castigo, que é junto ao frigorífico expositor dos peixes. Isto de ser só um para almoçar deixar qualquer empregado de mesa doído!

Voltei a caminhar pelo centro histórico até chegar a “casa”.

É por dias como este que sinto que estas experiências são boas, mas poder partilha-las com alguém é o ideal. Espero por ti aqui uma vez mais.
08/01/12



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ouvir, ler e escrever.

Ouço com dificuldade,
Só capto alguns tipos de comprimentos de onda.
Nem todas as frequências são agora detectadas por mim.

Mas continuo a ouvir…
O chamamento para o nosso encontro.
Espero que seja para breve.

Mesmo parcialmente surdo ouço,
Ouço gritos abismais que revelam a falta que me fazes.

Cada dia que passa
mais tenho a certeza que não fui abençoado pelo dom da escrita.
Tenho sim uma enorme apetência para ler.
Como o Larry Darrell, personagem principal da obra O fio da Navalha de Somerset  Maugham,
Eu podia passar todo o meu tempo no meio de livros em busca do sentido da vida. 

Interrogo-me sempre que vejo livros de 800 páginas,
Sendo eles escritos por alguém jovem ou não,
Onde é que ele ou ela teve tempo para ler…
A não ser o seu trabalho?

Isto porque eu gostava de dedicar uma obra literária…
a ti.
Tanto podia ser,
Romance
Fábula
Epopeia
Novela
Conto
Crónica
Ensaio…
Mas penso que te poderei indicar alguns livros para leres…

Mas oralmente sempre te posso dizer que te amo.
Sei que mereces mais.

Agora termino pois estou a ficar sem tempo,
 para acabar de ler o livro que me emprestaste.

Até já…

Na Estação central de Nápoles.










quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Frio.


Estava frio, estava na altura certa para começar a nevar. Mas não nevou. E pouco choveu.
Estava frio, na rua estava pior.

Muitas luzes. Mesmo assim tantas não afastavam o frio.
O vento começava a cortar. O nariz a pingar. O céu parecia estar a estalar. Luzes, de muitas cores, feitios e aspectos. Mas não aqueciam pele nem coração.
A tua presença sim. O teu corpo sim. O teu carinho também.

Tenho estado à espera para poder esperar por ti.
O frio abraça-me, retira-me o ar, queima-me… É como estar preso por correntes de gelo. Sinto o seu frio gelado a queimar e a enterrar-se na minha carne. Só com a ajuda do teu calor consigo aquecer. Só com esse calor consigo derreter estas correntes. Para voltar a ser livre.

Era quase sempre noite. Escuridão e muito frio. Sentia-me mais gelado do que estivesse mais longe do Sol do que Plutão está.
Mas abracei-te, e passou.

Muitas luzes, pessoas, comida, bebida, barulho, ruído, conversa, silêncios. Aqui estou. Não sinto tanto frio célsius. Mais uma vez muito frio corporal e emocional.

Volto a poder esperar por ti. Só espero poder esperar por ti sempre. Claro… quando não estiver a teu lado.

Estava muito frio, pensei que fosse nevar. Mas não.
Gostei de esperar por ti lá.
Gostei de estar contigo lá.
Espero lá voltar contigo.
Agora espero por ti aqui.
Tenho frio… não demores muito.

Afragola-Napoli
1/12/11  





quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Para descansar na areia.


Um olhar desviado
Pensavas que olhava para ti.
Não, hoje nada vejo.
Olhei e não vi nada.

O aperto no peito sufoca
Sufoca-me para além da dor
Parece que estou num local selado
Onde tudo e todos respiram o meu ar.

O temporal tolda-me a visão
Não consigo ver o monte
Já é de noite…
Só vejo vermelhas e brancas luzes

Onde toda esta gente quer ir?
Ir não sei, agora fugir sim.
Chove muito, não está agradável.

Era a teu lado que queria estar
Temporal ou não pouco importa
Um lugar agradável
Um destino seguro

Terei muito tempo para escrever
Parado é como estou.
Será que as pessoas que aqui estão e vão
Têm um porto seguro?

Também o que tenho eu com isso!

Levo os phones colocados
Crio uma redoma sonora.
Mas nada me é indiferente.

As rugas de uma vida na cara
Na cara de quem viaja a meu lado.
Vamos ambos de costas no sentido.
Mas não vale a pena regressar ao passado.

Aqui estou para no futuro ficar.
Como esta água toda que corre para o mar.
Eu só vejo o mar…
Um mar calmo e pacífico.

Nas ondas nado agora…
Vejo a ilha onde estás.
É lá que vou sair da água
Vou cair na areia e descansar.

As vagas são enormes…

26/10/2011

A4R
Afr-Nap

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Simples.

A sociedade está num caminho sem ordem… Cada vez mais o que sinto, é a falta de sentido nas pessoas por quem passo na rua. Aqui o crime é latente no ar… sente-se a sua presença. E claro que se vê isso na cara das pessoas. 

Entrei no metro e saí das entranhas do caminho-de-ferro passados dez minutos, e quando o fresco saudável me fustigava a cara pensa que estava a ter uma pura alucinação. Estava num local totalmente diferente. Pensei que estava a enlouquecer e sinto agora que quem passou por mim reparou nisso. A mim pouco me importa, pouco me interessa. Eu fico mais uma vez com a mesma sensação de que nada nem ninguém têm a sua rota traçada. Eu sabia para o que ia, eu tinha destino. E era tão desejado… a Pizzaria do Agunzo no bairro Vomero!  Não seria a primeira vez, mas seria a primeira vez só, e as coisas têm sempre um significado diferente, melhor ou pior. Dessa vez simplesmente não aconteceu… estava fechada. Pelos vistos o Agunzo encerra as suas velhas portas cheias de farpas ao Domingo!

Segui caminho, pensei porque não o funicular até MonteSanto para comer um outro tipo de pizza. E assim fiz. Mais uma vez tive a sensação de que tanto as pessoas que estavam comigo na carruagem descendente, como eu próprio, fazíamos mais do que uma viagem geograficamente insignificante. Era outro mundo, outros cheiros, outras cores, outros sons de gargalhadas. A vida glamorosa do topo do monte era para mim algo sintético, pois a vida que se sentia aqui quase nos deixa sem folgo. Na visita anterior o meu anfitrião sussurrou-me que as pessoas do topo do mundo, peço desculpa, do topo do morro não descem no funicular, já algumas cá do nível terreno por vez tomam o caminho ascendente. E eu lembro ter-lhe perguntado na altura, mas não vínhamos sozinhos na carruagem? A resposta foi sábia, os jovens ainda estão a viver a suas moratórias e pensa em ti… não és de cá.

Andando às voltas para me decidir qual o local para manjar uma Margaritta, passei por ruas e ruelas, e mesmo eu sem ter um aspecto totalmente díspar dos locais senti que olhos me percorriam ou pelos movimentos um pouco presos ou pelo cheiro não habitual, nunca deixei de passar a imagem de um total estranho.
Entrei numa das pizzarias do presidente, neste caso do filho, e por 5 euros comi uma pizza que por ser tão simples era fantástica.

É na simplicidade que me encontro, que me sinto bem, confortável… talvez por ser tão difícil encontrar a real simplicidade das coisas. O que é simples para nós? Algo simplesmente belo… 
Como tu…





domingo, 21 de agosto de 2011

O fim deste capítulo aproximasse… Tem sido mais que sumarento. Todos os sentidos foram exaltados, toda a resistência foi testada… primeiros dias entre neve e uma solidão extrema. Vivemos para nos testarmos, pelo menos eu sinto isso. Em tempos pensei que podia mudar o mundo, quando hoje vejo que é o mundo que me muda, todos os dias um pouco. Faço o possível para orientar essa mudança. Procurar o que queremos é uma batalha constante. Não tentem, façam!

Vi novas coisas, pessoas, emoções e sentimentos. Um frio físico imenso, e mais forte do que esse frio um frio emocional. Senti um Sol mais quente e húmido que o mais forte Hammam existente! Uma grandeza que me faz sentir ainda mais pequeno. “E também sei o quanto é importante na nossa vida não só sermos fortes, mas também sentirmo-nos fortes, para podermo-nos avaliar pelo menos uma vez…” Primo Levi.

Eu sempre pensei que existiam pessoas que estavam a mais neste nosso mundo, mas cada vez mais penso que não, elas existem pelo menos para nos demonstrar o que nós não queremos ser! Encontrei algumas pessoas assim na minha vida, aqui também me cruzei com algumas, mas aí foram muitas mais.

A verdade destas últimas linhas parece não terem nada a ver com o que antes foi escrito. Mas existe sempre o outro lado da moeda…

Faço por contemplar tudo o que o mundo me oferece, é tão difícil, somos empurrados para os caminhos mais tortuosos. Muitas vezes está tudo à nossa frente.

Vamos nos exaltar, vamos gritar, vamos chorar, vamos rir, vamos contemplar, vamos exclamar, temos que interrogar, claro que irei criticar, mas não irei ser inerte, isso não porra!

Vamos amar, vamos viver, vamos simplesmente existir… Já pensaram bem o quanto é difícil. Simplesmente existir, estar livre o verdadeiro sentido. Respirar só por respirar. Tentem existir só para existir, e aí vão encontrar os vossos maiores medos, terrores, ansiedades, mediocridades, necessidades ordinárias… Não vos falo em partir para longe da sociedade, não vos peço para ser ermitãs, realmente não vos peço nada. E aí está o vosso maior receio, o nosso maior terror. Existir simplesmente por existir. Talvez digam que não faz sentido, ok mas pouco me importa. Eu próprio não sei se faz sentido ou não. 





domingo, 24 de julho de 2011

Um estrangeiro estranho.

São tantas coisas novas que vejo. Tantas pessoas diferentes, estilos diferentes, cores diferentes cheiros diferentes, existe muita diferença aqui.
Somos tantos ao mesmo tempo, somos poucos iguais.

Uns dançam outros cantam outros parecem que têm ataques nervosos… eu vejo tudo de fora. Como uma câmara fotografia tento fixar todas estas imagens. Tento criar uma base de dados social. Para quê? Por diversão. Por curiosidade, por que me apetece.

Ontem éramos muitos, uns 20 mil no mesmo local. Fiquei com a sensação que eram tantos e eu o único português. Por momentos achei um pouco estranho, mas depois passou. É incrível o que o sentimento de pertença nos faz sentir. Mas por estar fora da minha realidade social achei muito interessante como aquele multidão viveu o momento de forma tão ordeira. Sem confusões para entrar no local, sem atritos para arranjar comida, sem empurrões quando simplesmente estavam a expressar os seus sentidos exaltados por música elevada a altos decibéis. Para mim foi estranhamente interessante como esta gente simplesmente aproveitou algo que era para aproveitar.

Afisha Picnic era o nome do evento, um festival de verão em Moscovo.

“People are strange when you’re a stranger” Será… acho que sim.